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terça-feira, 5 de abril de 2016

A CURA DO sÓDIO

A CURA DO sÓDIO

 Para quem vê o Façanha atualmente, um homem sensato;cordato e alegre, fica difícil acreditar que ele já foi um indivíduo ranzinza;mau‐humorado;desconfiado;reclamava de tudo e de todos;arranjava briga até com quem não queria;usurário;arrogante e prepotente, na verdade um completo chato repugnante.
A mudança foi assim: Certa manhã liga para a “repartição” e avisa ao chefe que só vai no segundo expediente; é que às dez tem consulta marcada pois anda sentindo umas dores do lado direito. E bate o telefone sem escutar do chefe sequer um Boa Sorte. 
 No consultório. Depois de observar os exames e fazer alguns procedimentos, médico diz para o Façanha vestir a camisa e sentar‐se na cadeira em frente à sua mesa; em seguida senta‐se também e, sem muito arrodeio fala claramente: È cirrose hepática. O senhor tem,aproximadamente,trinta dias de vida.
  O Façanha se levanta, toma os papéis das mãos do médico,soca tudo no saco plástico
em que ele os guardava e sai apressadamente batendo a porta. 
 Naquele momento o único pensamento era na “meiota” de cachaça que tomava todos os dias depois do expediente.
 Já no bar,em sua mesa costumeira, e após tomar uma “dupla” sem pestanejar, começa a raciocinar sobre o que estava acontecendo e passa a tomar atitudes. A primeira foi comunicar ao garçom que ao invés de uma “meiota” naquele dia ele reservasse ,na geladeira, uma garrafa inteira, e, para tira‐gosto,no lugar da siriguela como era de costume, seria cajarana com sal.
 O garçom leva o pedido ao patrão o qual naquele exato momento entendera que algo diferente estava acontecendo pois era de conhecimento de todos no bar, que já havia pra mais de dez anos que o Façanha não ingeria qualquer alimento que contivesse sal. Mesmo sem entender pôs na bandeja algumas cajaranas e um saleiro todo abastecido.

 Poucas doses depois e meia dúzia de cajaranas consumidas o Façanha reclama ao garçom que o saleiro está vazio. Prontamente o rapaz pega um outro,de tamanho maior, na prateleira em baixo do balcão, e repõe o produto na mesa.
 A bebedeira seguia animada: Ora o assunto era política; depois passava para futebol e, para completar a discordância, iam discutir religião. Em meio a esses assuntos, a galhofa girava em torno da novidade que era o Façanha comer sal. A todo momento vinha um de outra mesa e fazia piada com o fato. O Façanha a tudo ria e, entre uma baforada e outra, mergulhava a cajarana no sal antes de morder e se deliciava com o procedimento. Por volta das treze horas ele faz uma pausa na cachaça e pede um caldo de peixe; ocasião em que ele, sozinho, devorou o segundo saleiro e pediu outro .
 Os freqüentadores de um bar estão sempre se revezando , uns dão o primeiro expediente, outros , o segundo, de forma que o ambiente estava agitado e todos eufóricos com o assunto do Façanha, o qual, sempre que chegava um novato na mesa ele rapidamente mostrava sua intimidade com o mineral. A essa altura,como os buracos do saleiro já haviam entupidos, a solução foi despejar em um prato fundo, onde o Façanha, todo sorridente, passava o dedo indicador e levava à boca algumas vezes seguidas e soltava a frase:” Não faço nem careta”
 Nessa tarde houve várias interrupções no consumo da pinga, entretanto no consumo do sal só houve incentivos. Em meio às conversas e às disputas de “porrinha” O Façanha pedia: Batata frita; pipoca: torresmo e avoante. Cada prato que chegava à mesa o próprio Façanha fazia o tempero a seu gosto; era tão exagerado que ninguém conseguia comer,somente ele com um jejum decenal suportava aquele nível de salinidade. E assim passou toda a tarde e entrou pela noite 
O dono do bar,na ponta do balcão distante da mesa do Façanha, falando à boca pequena, estimava que das onze da manhã até aquela hora ele tinha ingerido entre seiscentas e setecentas gramas de sal O relógio já beirava dezenove horas e o bar estava cada vez mais cheio, pois a turma do terceiro expediente já havia chegado e a turma do segundo expediente ainda estava na primeira “saideira”; sem falar nos free‐lancer e nos full‐time; Eis que, com o intuito de ir ao freezer encher o copo de cachaça, o Façanha levanta‐se mas não consegue dar nenhum passo: Os pés suam; as pernas tremem; uma mijadeira abundante; no abdômen cólicas fortes e barulhentas; o rosto escurece; a audição desaparece, daí ele se apóia com as duas mãos na cadeira pois o que ele vê são as paredes girando no sentido horário as pessoas girando no sentido anti‐horário; o chão assemelha‐se a uma rampa e o teto parece que vem descendo.
 Passado‐se alguns minutos nessa agonia,ele se firma de pé; mira a porta da rua;abre a boca com um diâmetro descomunal e sai em disparada dando um berro estridente ensurdecedor derrubando tudo que encontra pela frente. Ao chegar próximo à saída, começou a jorrar grande quantidade de um produto de cor verde‐bilis que cheirava mal e assustava a quem via a cena. Segundo um freqüentador que acompanhara todo o drama do Façanha pois,é um do tipo “tempo integral”, que estava no passeio, diz que o homem soltava fogo pelas ventas e fumaça pelos olhos. O que é certo mesmo é que naquela noite o Façanha expulsou de si toda podridão que há anos carregava. Cessada a expelição o berro continuou por quase um minuto.
 Conduzido a uma cadeira em baixo de um ventilador,o dono do bar serviu‐lhe um café amargo e quente, bebida que o freguês costumava pedir para se refazer dos porres.
 Após alguns minutos com os olhos fechados e a cabeça encostada na parede, o
Façanha se levanta e, com voz forte e firme diz ao dono do bar: Faça todo o levantamento da minha despesa que amanhã eu venho acertar. Pega o guarda‐chuva no cabide e sai apressado.
 A funcionária do estabelecimento que fora incumbida de limpar a sujeira; com vassoura; balde e pano de chão na mão, chega para o patrão e diz: “Tem nada sujo lá fora não”. Sem acreditar o homem vai até o local e constata que o produto expelido pelo Façanha havia desaparecido como por encanto, sem ninguém saber o paradeiro.
 Na manhã seguinte o Façanha se levanta disposto e saudável; tira a barba; se arruma com zelo e vai trabalhar. Passa na mesa do chefe, estende‐lhe a mão e diz: Bom dia chefe ! Agora sou outro homem, aqueles processos acumulados há meses, esta semana vou concluir todos.O chefe, (homem religioso que sempre incluía o nome do colega em suas orações), pasmo e satisfeito responde: “Bom dia meu amigo Façanha”. Enquanto o Façanha se dirige para o relógio de ponto o chefe exclama silenciosamente:  
ÔH BÊNÇÃO !

(Cid Lobo)

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