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sábado, 6 de novembro de 2010

A Arte da Fuga

                      A Arte da Fuga                            


















  A Música morreu em meados do século 18, pra ser mais exato, em 1750 no final do mês de julho, num dia chuvoso de verão. Findou em exuberante sepulcro é verdade, tendo caído prematura sobre pastos verdejantes tão complacentes que nem o piedoso Músico Judeu Davi ousou jamais imaginar.
   Um suave rumorejar de águas cristalinas, testemunha da outrora potente tempestade noturna, embalou solidário e afetuoso nossa querida Música, desde os primeiros espasmos de sua cruel decadência.
   Uma suave e morna brisa do crepúsculo, a correr o vale apressada em logo subir a montanha, com natural benevolência retrocedeu seu movimento, e naquele instante, naquele inusitado momento, atormentada com tão pavorosa visão, dedicou com nobreza todos seus amores e mimos àquela que tão cedo sofria os estertores da morte.
   E assim, piedosamente cercada pelos Elementos e Potências da Natureza, decaiu, agonizou e expirou a Música.
   Seus queridos prantearam-na grandemente.  Saudades eternas juraram-lhe contritos, porém, cumpriu-se o vaticínio sabiamente sentenciado pelo Compositor, em frase lapidar: Um belo dia rompe-se o pó, que caindo em sua finura, apaga da lembrança aquilo que outrora fora.
   Esta foi, portanto, amigo leitor, a reprodução fidedigna, sem que tenha omitido uma vírgula sequer, da leitura que fiz certo dia, desta descrição mui antiga e mui secreta, há séculos registrada no rol dos espíritos benevolentes, sobre a decadência, ruína e morte da Música, como desfecho de uma epopéia fabulosa. Não num Grand Finale, reconheço, apenas num senza rallentando. Senza Rall...
    O texto, acima, escrevi-o há anos, ainda na minha mocidade. Por essa época defendia uma tese que gerava muita polêmica entre os colegas músicos. Afirmava com todos os arrufos que a pouca idade nos permite, que a Música evoluíra rapidamente, desde o mais tosco bater com ossos num oco de pau, até os requintes de uma fuga a quatro vozes, obra do mestre de Weimar. E que aí, neste momento fabuloso, quando o homem quase rompera a barreira atômica que o separava do Grande Compositor, algo de errado ocorreu. Alguma coisa começou a desandar e, a evolução estanca seu próprio movimento, pára, imobiliza-se, e o pior, não conformada com a própria estagnação, passa a retroagir, como se procurasse sôfrega, um pedaço de osso e um oco de pau em que pudesse novamente bater!
   Chegados a esse ponto, devo tranqüilizá-lo caro leitor, informando que não vou, absolutamente, entrar em pormenores descritivos sobre a evolução do contraponto na cronologia histórica da Música, pois sei perfeitamente que o leitor desta coluna e do OPS! de um modo geral, conhece perfeitamente as particularidades da evolução das Artes, e com sobeja. Evitarei, portanto, ser didático. Mas para quem quiser uma abordagem mais, digamos soft, (soft é bom não é?) sugiro uma rápida leitura deste nosso artigo
   Pois bem, o contraponto evoluiu. De simples apoio harmônico, espécie de lacaio subserviente do tema principal, passou a ter uma estrutura fraseológica tão complexa quanto o tema principal, muitas vezes superando-o em expressão e originalidade. Pelo menos em J.S.Bach vê-se em claridade meridiana a veracidade do que agora se diz. E a fuga, rapidamente transformou-se na mais complexa, perfeita e deslumbrante forma musical do ocidente.
   Tudo bem, tudo muito bem, o entrelaçamento das diversas vozes numa fuga, numa invenção a duas ou três vozes, numa tocata e etc. levava-nos ao alumbramento que só a polifonia nos pode causar. Mas, a polifonia horizontal, resultado da integração de duas, três, quatro ou cinco sublimes vozes. Sublimes, independentes, altivas, mas integradas vozes. Não a polifonia vertical, dura,  espacialmente deslocada e sem vida.
   E a exposição temática, como é maravilhosa a exposição de um tema na maioria das vezes muito simples! Mais admirável ainda, a repetição deste tema, quando a primeira voz, ao invés de limitar-se a mero apoio contrapontístico, e justamente nessa hora, hora cruciante e decisiva de sua exposição, toma novo fôlego, nova vida, novo entusiasmo, e exaltada alça vôos nunca esperados. E assim se dá com todas as vozes de uma fuga. Todas num mágico navegar sobre ondas inquietas em busca do pélago, o Stretto. Aí, só resta ao amante da Música, se versado for na Ars Muriendi, expirar mais uma vez, pleno da magia da música, pleno de encantamento pela inspiração aliada a sublimidade técnica do compositor, e submergir nas profundezas abissais do universo contrapontístico, para nunca mais retornar. Nunca mais...
  Pelo menos, tudo isso se aplica em relação a J.S.Bach, que foi o único, o único disse eu, a estabelecer e dominar tais fenômenos. E, antes das contestações vou logo dizendo, nem me venham com Pachelbel, pois não chegou, este grande compositor, aos pés do Mestre da Fuga. E se afirmo tal coisa de Johann Pachelbel, certamente que de nada adiantará evocar Handel, Vivaldi, Scarlati e etc. e etc.
   J.S.Bach, expoente do Barroco, viveu numa época em que essa escola já findava, apesar de estilisticamente poder ser enquadrado no alto barroco. Durante sua maturidade criadora, época em que talvez, auxiliado por Euterpe e Apolo, alcançasse plagas muito distantes, o barroco à sua volta já não era o mesmo, findava, e o Classicismo já se preparava para traiçoeiramente golpear, de morte, e usurpar a polifonia (contrapontística) barroca.
   Ainda naquele texto acima, texto da minha mocidade, afirmei que quando o Classicismo cruel e traiçoeiro assassinasse o Barroco, o Romantismo enterrá-lo-ia em profunda cova, enquanto o Impressionismo, nem mesmo uma reles inscrição imprimiria em sua fria lápide. Bem, são termos um tanto quanto contundentes, admito, mesmo para o menino que era, mas, a bem da verdade, devo admitir, sempre vi desta forma o correr da evolução da música, desde meus tempos de rude martelar as teclas do piano, desde as primeiras tentativas de levar a bom termo uma pequena peça do livro de Anna Magdalena Bach, ou uma invenção a duas vozes ou, uma fugueta qualquer. Sempre achei que o abandono de uma técnica contrapontística tão esmerada e sutil, no ponto a que ela havia chegado, substituíndo-a por uma construção composta simplesmente de uma linha melódica e um acorde elementar, morto, estático, sem vida, como foi quase tudo após o Barroco, seria exemplo da mais pura retroação, fruto da imbecilidade e indignidade humanas, seria? Não, hoje acho que não, mas, era assim que via a transição do barroco para o classicismo, e o mais irritante era ver, nos próprios filhos de J.S.Bach essa inércia confortável que para mim, sempre fora o acorde clássico, a forma clássica, o pensamento clássico...
   Espero que não estejam entendendo que sou contrário às escolas que sucederam o Barroco, não é isso, só acho lastimável que a técnica contrapontística tivesse que ceder espaço para outras formas, mesmo porque, acho que ela poderia ter sido inserida em todos os estilos musicais, até os dias de hoje, sem nenhuma perda para nenhuma delas. Imagine caro leitor, um Debussy e todo seu magnífico Impressionismo expresso na forma contrapontística de Bach! Seria possível? Coisa de louco mesmo, entretanto, só podemos imaginá-lo.
   Mas, estou inquieto, desde o início deste texto, a cada parágrafo, procurando uma forma de escusar-me, de dizer que este pensamento pertencia a um jovem, e que com o tempo fui vendo as delícias da expressão puramente sentimental, que a forma mais humanizada e livre do classicismo e do romantismo, justificou a necessidade de um conceito muito mais espiritual que técnico de se compor. Enfim, procurando uma forma de redimir-me diante do grave pecado de aparentemente ter jogado tantos Gênios, e em poucos minutos, num grande latão de lixo.
   Mas, antes da crucificação, devo adverti-lo, como qualquer amante da música, tenho verdadeira veneração por certos compositores, de todos os períodos, agora, nunca entendi como homens cultos, muito acima do normal, conformaram-se em trocar uma forma completa, madura e superior, por outra, digamos, simplória e sem horizontes destinados à expansão. Por preguiça? E, quem dentre vós for pianista, indagando a seus dedos sobre as delícias de percorrer os caminhos duma fuga, e deles ouvir como resposta que preferem um Noturno Romântico, que atire a primeira pedra. E tente perdoar meu pensamento sebastião!
   Este assunto é bem extenso e, dificilmente esgotar-se-ia em alguns artigos, por isso, retornarei a ele em outras oportunidades.
     Tive a tremenda ousadia de produzir, há anos, um pequeno compêndio sobre a Arte da Fuga. Não uma re-leitura sobre a Arte da Fuga de J.S.Bach, é, antes, um “manual sobre a arte de compor fugas da maneira como J.S.Bach o fazia”. Qualquer dia, dando prosseguimento ao tema de hoje, publicarei o tal compêndio aqui nesta coluna. Se possível for.
   Forte abraço.

    Artigo originalmente editado n'O Pensador Selvagem,  na coluna Quiáltera  , assinada por lobao.
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xava

                                                                                                                                                           

2 comentários:

  1. É uma pena que Bach tenha falecido tão cedo mesmo, e sua música ou seu estilo de música também. Será que não há alguma maneira de bach retornar , não em vida é claro, mas em forma de música?

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  2. Era ao que aspirávamos, outrora, caro amigo. Quimeras...
    Forte abraço!

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