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domingo, 1 de novembro de 2009

Eudóxia de Barros - Reposted -


 Editorial de Domingo                                                                                         


Reposted






     Alguns de nós somos mais saudosistas que outros, é verdade. Não vejo nada de mal nisso, eu mesmo sou extremamente apegado a velhas traquitanas. Sonhando acordado vejo-me em outras eras.


     Nas esporádicas e cada vez mais raras viagens que faço à Capital, meu alvo ainda são o casario. Vejo o que sobrou duma época de glamour, vejo a loja tosca e de mau gosto que substituiu um belo casarão. Vejo um mais que horroroso prédio de apertamentos plantado bem ali, onde outrora reluzia aquele sobrado onde gozei deliciosos momentos,  grande parte de minha juventude...


     E não adianta apelar para leis preservacionistas, não, isso não existe. É mera balela, conversa para bois tolos dormirem. Qualquer espaço que interesse ao poder econômico é imediatamente demolido. É assim a lei da estupidez e da ignorância, e funciona magnificamente. Com uma eficiência exemplar. Coisas do Brasil!


    Mas, como em tudo há exceções, lembrei-me agora de uma delas e de um fato também interessante relacionado a coisas antigas. Todo mundo sabe que os melhores violinos são aqueles fabricados por Stradivarius. Dizem os especialistas, têm uma sonoridade espetacular, por conta talvez, da madeira meio queimada com que foram construídos, e, com o passar dos anos melhoram mais e mais sua qualidade sonora, acho que a tal madeira já se está petrificando e, com isso, adquirindo características peculiares, sei lá... O que importa é que existe um consenso de que violinos, quanto mais velhos melhores. Este conceito naturalmente estendeu-se para outros instrumentos da mesma família, e após, para outras famílias, até chegar ao piano.

   Ora, um violino nada mais é que uma caixa de ressonância onde cordas são presas e esticadas através de um braço que lhe serve de extensão. Friccionadas, essas cordas, por uma mexa de longos fios de rabo de cavalos, esticados através de um arco, geram a sonoridade peculiar aos violinos. Grosso modo é só isso, e o efeito é fantástico, dependendo de quem o manipula. Não é formidável?



   Já um piano não, é tudo muito diferente, a tecla, ao ser acionada, inicia um processo, todo ele através de entalhes precisos na madeira, engrenagens, molas, feltros e etc. Finalmente, ao ser martelada a corda, um extenso processo mecânico antecedeu a formação do som que ouvimos. Ora, é natural que tal mecanismo, como qualquer mecanismo, gaste-se ao sofrer a ação do tempo não é? E se todo esse intrincado sistema não for mantido em perfeito funcionamento, (o que nem sempre é possível, pois as peças de madeira gastam-se quando em fricção com outras) o resultado é um instrumento com teclas pesadas, com pouca resposta sonora, lentas e... Impróprio para uso em uma sala de consertos, por um grande virtuose.



   Pianos mais antigos, que nunca passaram por pequenos ajustes e reformas então, nem se fala, precisariam de uma reforma estrutural tão completa que, nem sei se valeria o custo da obra.  Sem falar que a boa Liuteria não é tão fácil  achar.


   Pois bem, há uns trinta anos, esteve aqui na minha cidade para um recital, a grande Eudóxia de Barros, que marcou apresentação no Teatro Universitário. À época nada mais que uma minúscula sala, mal projetada de bancos desconfortáveis e quente. Mas que tinha como estrela, no palco, a abrilhantar-lhe, emprestando-lhe parte de sua fermosura, um magnífico e enorme piano cauda longa, próprio para concertos. Não me lembro se era um Steinway ou um Fritz Dobbert, ou outro qualquer, creio que já vão bem mais que trinta anos... Bem, não importa.


   A grande pianista, ao chegar e examinar o instrumento, apesar da marca e modelo do mesmo, percebeu, naturalmente, que seria impossível um recital naquilo, aliás, naquele velho piano. E eu que estava lá desde cedo, lembrei-me que a poucos passos daquela sala, no prédio vizinho, o Conservatório, nesta época pertencente à Universidade Estadual, se não me falha a memória, encontrava-se no auditório do primeiro andar (o único, aliás) um Yamaha, também de cauda, novinho em folha, estalando de novo. Eu mesmo já havia tocado nele diversas vezes, e ouvira  pianistas colegas meus, nele se apresentarem.


    Quando a grande pianista viu-se neste impasse, houve certo mal-estar por parte dos organizadores do evento que, parece-me, por pura falta de conhecimento básico sobre música, marcaram um recital de piano num local em que o piano era uma verdadeira sucata. Muito bonito, de muito boa marca, mas, uma sucata. Coisas do Brasil.


   Várias pessoas (com discernimento e sensatez) sugeriram que a musicista transferisse a apresentação para o prédio ao lado, onde se achava à sua disposição, no auditório, um magnífico Yamaha. Feita a mudança e com pouco atraso, o recital transcorreu maravilhoso. A grande Eudóxia de Barros, mulher ainda jovem e bela, brindou a todos com um magnífico espetáculo. Eu, também jovem, fiquei encantado com a bela presença feminina da maravilhosa pianista!


   Não sei do tal piano do teatro, nem do Yamaha do auditório, talvez nem mais existam, mas, a pianista, a grande Eudóxia de Barros, é possível conhecê-la e à sua discografia através do belo Site http://www.eudoxiadebarros.com.br











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5 comentários:

  1. Caro Lobão,
    O "Editorial de Domingo" está muito bem escrito, um formato de crônica que começa instruindo o leitor sobre esses dois clássicos instrumentos - o violino e o piano - só para depois entrar em cena a personagem principal do texto: a pianista Eudóxia de Barros (que vou procurar conhecê-la).

    Já baixei o cd de Chopin postado acima, tão bom quanto o outro que não consegui descompactuá-lo.

    Quanto ao conto "Os Cabelos de Clarisse", uma feliz coincidência.

    Só faz uns dois meses que descobri o blog "Piano Clássico", já baixei alguns discos, entre eles o excelente "Chiquinha Gonzaga".

    Obrigado, Lobão, abraços do novo amigo blogueiro.

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  2. COnhece os pianos Bösendorfer?São sem dúvida os melhores que existe...

    ABçs,

    AL

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  3. desculpe-me: melhores que existem...

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  4. deculpe-me:melhores que existem...

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  5. Conheço, caro amigo Anônimo, sem nenhuma intimidade, mas, conheço!
    O que sei é que a Yamaha comprou integralmente a fábrica, comprometendo-se entretanto, a manter todas as características de sonoridade do instrumento, através da manutenção da tradicional técnica de construção Bösendorfer.
    Pianos são, na minha maneira nada profissional de ver as coisas, indivíduos personalíssimos. Já tivemos, em nossa casa, um Apollo Dresden espetacular, e a marca nem é lá essas coisas, como sabes. Também já tive um Essenfelder magnífico, sim senhor, um reles Essenfelder. Também conhecí, certa feita, um Brasil de sonoridade icomparável!
    Parece que têm personalidade não é?
    Muito obrigado pela visita. Por favor volte sempre. Comentários são sempre bem vindos.
    Forte abraço.

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