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domingo, 8 de março de 2009

Órgão Eletrônico / Órgão Portátil.

  • Na minha mocidade, esse negócio de órgão eletrónico já existia, mas era figurinha muito difícil por ser muito caro. Quase impossível pr'um rapaz de classe média, dinheirinho contado e espremido. Mas, era um de meus sonhos de menino, anos a fio acalentado, sonho sonhado, e sonhado com profunda veemência.
Rapazote ainda, consegui comprar um velho harmônio "portátil" ou, sei lá o que era aquilo de verdade. Era realmente um bicho meio esquisito, fechado parecia uma caixa de Sanfona de cor amarelo escuro, padrão daquelas velhas malas matutas conhecem? Feitas de madeira bem fininha ou papelão bem grosso, artisticamente pintadas, via-se muito nas paradas de ônibus. Mas se era feio fechado, aberto então... A parte de baixo transformava-se nos pés, exibindo na sua parte frontal uma pequena portinhola, abrindo-a viam-se os pedais do fole, a tampa superior, se retirada toda deixava à mostra seu interior (lindo interior) palhetas, pequenos tubos de ar, um primor da genialidade humana. Se aberta só parcialmente, exibia apenas o teclado, quatro oitavas, se me recordo, e transformava-se no suporte de partituras.
Comprei-o de segunda mão (bote segunda nisso) já bem sambado, o fole muito furado mesmo após meus diligentes reparos, sempre deixava escapar o precioso ar e, por ser muito pequeno, exigia pedaladas fortes rápidas e vigorosas.
Theco theco theco (era o barulho dos pedais), Furum furum furum ( o velho fole cuspindo música pelas ventas ), parecia a sanfona velha do Luiz Gonzaga. Mas, eu o adorava! E enquanto pedalava feito um louco, sentia-me a tocar um magnífico Órgão de Tubos numa gigantesca Catedral na velha Alemanha de meus avós.
  • Na Escola de Música Leonie Ehret, eu abria com orgulho aquele troço esquisito, punha-o ao lado do piano e requisitava a presença da proprietária da Escola, minha querida mãezinha, que Deus a tenha; que tola e prontamente atendia meu apelo, indo feliz perder seu precioso tempo com seu irrequieto e sonhador caçula (e chato diga-se de passagem). Aí então éramos um dueto, e de tudo tocávamos, ela com uma paciência de Santa, que só hoje percebo, aturava-me horas a fio. Se ela perdeu muito de seu tempo doando-o assim, pra mim foi o melhor tempo que tive em toda minha miserável existência.
Certamente faremos tudo novamente, um dia, lá no Céu, ou noutro plano, como queiram.
  • Já homem, 18 anos, por aí, consegui adquirir um Órgão Eletrônico de verdade, um Diatron Spectra, a fina flor da tecnologia da segunda metade do século passado, afinação individual através de bobinas, uma para cada tecla, cinco ou seis oitavas, deixe-me ver, umas cinquenta bobinas, de bom tamanho, dentro do bicho, coisa bonita de se ver por dentro, parecia mais um painel de controle de disco voador. Vivia mais em conserto que em concerto (desculpem o trocadilho horroroso).
Por essa época era tocador de casamentos, é, não podia haver um casamento e um tolo que me contratasse, lá estava eu, fazendo a maior zoada. Nunca deixei noivo nenhum escolher as peças musicais, enrolava daqui e dali e acabava sempre convencendo-os e botando só o que eu queria, Muito Bach, um pouco de Schubert, Clementi e até Bertini, ah, a Marcha Nupcial também, era o jeito...
Belo dia, contratado pr'um casamento, fui antes à igreja como era de costume checar o Órgão, não tinha, tinha mas estava quebrado, pra variar o meu velho e querido Diatron Spectra também, no prego. Só tinha um jeito, o Harmônio portátil. Aquilo? Não, de jeito nenhum, naquela igrejôna? Jamais. Foi ele mesmo, e foi mesmo, com cara de caixa de sanfona misturado com mala nordestina e tudo.
Chegando na tal igreja mais um entrave, como o harmônio portátil tinha o som muito fraco, tinha que ficar bem perto do padre, para que ao menos os noivos e os mais próximos ouvissem-no, e eu ali morrendo de vergonha daquele troço esquisito... Ainda sentou-se uma freira do meu lado como fosse ajudar a passar as partituras, e disse: "hoje vamos ter boa música heim"? Não mandei-a àquele lugar porque ela o fez por conta própria, bom sumiu, e pude finalmente dar minhas pedaladas sossegado. Toquei e foi até bonzinho, foi um belo casamento, espero que os noivos ainda sejam felizes, e de quebra ainda recebi muitos elogios além do pagamento, é claro. Aliás por falar nisso, gosto de frisar sempre que o brasileiro gosta e muito da boa música, como qualquer ser humano. Sou prova disso e já sentí-o (esse amor) em minha própria pele muitas vezes. Ora, num casamento os verdadeiros astros são os noivos não é? Seguidos pelo Padre, espécie de ator especialmente convidado, como diria Gil Vicente um Sages mercador. Coroínha, Damas de companhia, Garçãos e Músicos são meros coadjuvantes, o público são os convidados, e está montado o espetáculo. Ora, nunca aconteceu de, terminado o casamento, não ser procurado por diversas pessoas que congratulavam-me pela apresentação. O que me deixava sem graça, pois achava que todos os cumprimentos só eram devidos aos artistas principais, os noivos e o padre, nunca aos figurantes. Naturalmente aceitava emocionado todos os elogios mas, tentava desconversar, chamando a atenção para a cerimonia em si, que era o mais importante. Isso, entretanto, serve para demonstrar como o brasileiro ama a boa música, a Música Erudita, venha ela dum Yamaha cauda longa tocado por um grande virtuose, ou de um Harmônio esquisito, parecido com uma sanfona, inda mais tocado (arranhado) por um músico de quinta categoria.
  • Qualquer dia conto pra vocês como quase destruo um piano novinho tentando transformá-lo num cravo, mas isto é uma outra história, por hora
Um forte Abraço!

2 comentários:

  1. Hmm... Sr. Lobo, é vocÊ mesmo? Havia me dito que nunca tinha tocado em casamentos.

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  2. Disse? O pior, querido Davi, é que toquei e muito. Quando um menino sonha com as salas de concerto internacionais e acaba em batizados ou casamentos, é até natural que se envergonhe disso. Hoje não, com a minha idade, tenho é orgulho! Só nunca toquei em velório (faltou convite).
    Mas,vc é Músico talentoso e versátil sabe como são essas coisas.
    Sou eu mesmo. Um forte abraço Davi!

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